Abuso sexual: qual a importância da denúncia e da visibilidade para evitar novos casos?

Após um grupo de nove mães procurar a polícia no mês passado depois de os filhos de 3 a 4 anos serem vítimas de maus-tratos e estupro de vulnerável, e o caso ser noticiado, outro caso chegou ao conhecimento da delegacia. Mas de que forma a visibilidade dos casos envolvendo os crimes de abusos contra crianças ajuda a evitar novos casos?

A psicóloga Ceres Mota Duarte, especialista em Terapia Cognitivo Comportamental e Delegada Estadual da FBTC (Federação Brasileira de Terapias Cognitivas), pontua que a visibilidade dos casos é essencial para mostrar ao abusador que algo pode ser feito contra ele e, principalmente, mostrar às crianças e aos adolescentes que estão protegidos e de nada têm culpa.

Para a especialista, a divulgação dos casos — sem ferir a integridade das vítimas — colabora para que novas denúncias apareçam e a polícia possa coibir a ação dos abusadores.

“É de extrema importância que a cada situação, seja de abuso ou maus-tratos contra crianças e adolescentes, seja realizado a denúncia. A escola é um espaço onde ocorre boa parte de experiências importantes da vida das crianças: sociabilidades, aprendizagens de habilidades, bem com aquisição de conhecimento e a criança estabelece relações nesses ambientes. Então é fundamental que ela se sinta protegida e não ameaçada. A visibilidade favorece sim, que mais casos ocultos possam aparecer”, disse à reportagem.

Sinais que possam indicar abuso

Em entrevista anterior, a então delegada da DEPCA (Delegacia Especializada de Proteção à Criança e ao Adolescente) na época, Marília Brito, contou quais os sinais que uma criança pode indicar quando está sendo violentada.

O primeiro sinal a ser observado é uma possível mudança no comportamento habitual da criança. “Teve alguma modificação brusca de comportamento? É importante analisar isso, buscar a origem. Às vezes, a aproximação demasiada de alguém, ou um antagonismo muito severo com relação aquela pessoa”, alerta. Queda no rendimento escolar, ansiedade, depressão, automutilação, isolamento também podem ser sinais do abuso.

O passo seguinte é buscar entender o que foi que aconteceu. “Se foi um abuso, se foi uma violência, se foi um fato comum da vida que deixou essa criança desse jeito”, descreve.

Não existe um perfil específico de abusadores, pois eles podem estar em qualquer lugar, em todas as classes econômicas, e em todos os ambientes. Mas, de acordo com Marília, esses indivíduos geralmente tendem a permanecer em ambientes de convívio de crianças. “Locais que dão a ele, acesso a essas crianças. Mas também tem aquele abusador de gerações. Que abusa da filha, da neta, da bisneta, da sobrinha, e da geração inteira da família”, contextualiza.

Estatísticas apontam que a maioria dos casos de estupro de vulnerável são praticados dentro do ambiente familiar, por padrastos, vodrastos, avós, pais e tios. “Esse é um ponto delicado. É muito difícil um filho chegar para uma mãe, e falar que o pai, o padrasto, o vô ou vodrasto, está abusando sexualmente. Encarar tudo aquilo com veracidade e fazer o rompimento do vínculo, é uma dor que atinge toda família”. Muitas vezes, a criança sente vergonha e até culpa, e com isso acaba não relatando a ninguém o abuso sofrido.

Há casos em que a vítima conta e acaba não sendo levada a sério por quem deveria protegê-la, causando danos psicológicos para a vida inteira. “Geralmente o agressor é quem deveria proteger aquela criança. Então aquela criança não tem voz. Porque quem deveria dar a voz e a proteção é quem pratica a violência. Então, para aquela criança sair daquele ciclo de violência é muito mais difícil. Geralmente também, a família tem muita dificuldade de crer na palavra da vítima. E o fato daquele que deveria ter tomado atitude, que deveria ter procurado as autoridades, não ter feito, causa mais dor”, pontuou.

Fonte:Midiamax

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