Aumento da inflação faz embalagens diminuírem de tamanho na Capital

Fabricantes podem mudar tamanho de embalagens de itens, mas têm de seguir normas federais

A assistente social Maria Campeiro, de 43 anos, foi até um atacadista na manhã desta quinta-feira (12) e o sabão em barra, um dos produtos que estava em sua lista de compras, está “menor” do que costumava ser, anteriormente. Segundo ela, o pacote passou a vir com quatro unidades, ao invés de cinco.

A consumidora ressalta que o produto evidencia no encarte que há mudança, com os dizeres “novo formato anatômico”. Já a caixa do sabão em pó indica que os novos 800 g rendem o mesmo que 1 kg.

“800 g rende igual 1 kg” indica embalagem de sabão em pó que perdeu tamanho. (Foto: Cleber Gellio) – CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

Reduzir o volume dos itens e manter o preço original tem sido uma das estratégias que empresas têm adotado para não perder a fidelidade do consumidor, em meio ao aumento constante na inflação, no Brasil.

Campo Grande teve o terceiro maior aumento no último mês e acumula a quarta maior alta dos últimos 12 meses, de todo País. Segundo o IBGE (Instituto Brasileiro de Geografia Estatística), os mesmos produtos, no geral, custam 12,85% mais caro, no último ano.

A confeiteira Júlia Martins, de 59 anos, compra leite em pó com frequência e relata que pagava R$ 5,80 no produto que tinha 450 g. Agora, esse mesmo item é vendido a cerca de R$ 8, com 380 g. “Fazer o que? A gente tem que sobreviver, né, não tem como escapar. Mas o jeito é pesquisar.”

Júlia já notou diferença na embalagem do leite em pó. (Foto: Cleber Gellio)

Proprietária de uma padaria junto ao marido, a empresária Vanessa Scherer, de 36 anos, costuma comprar muitos ovos quando vai ao mercado, por conta de sua produção, e já percebeu a diferença. Segundo ela, a cartela de ovos passou de 30 unidades para 20, ainda que o tamanho desses tenha aumentado.

Se você não prestar atenção na embalagem, você acaba se enganando e levando uma de 20 ovos, achando que está levando 30.”

Vanessa ressalta que outros itens acabam sofrendo na qualidade, não apenas na quantidade, como o iogurte, que tem vindo cada vez “mais fino”. “Antes, eram mais espessos. Talvez tenha uma diferenciação, para deixar o produto mais barato”, nota.

“Como a gente compra muitos ovos porque a gente fabrica pães, a gente consegue perceber. A gente tem um olhar mais clínico. Mas quem é leigo, que não compra esse produto todo dia, não percebe”, opina.

A autônoma Nerci Lima, de 63 anos, identificou que a caixa de bombom, por exemplo, segue com a mesma embalagem, mas com menos doces. “A caixa continua do mesmo tamanho, mas o peso é outro. O preço não para de subir.”

Quem não percebe, né? Olha só, vai desde o sabonete até a balinha. Se você comparar a balinha, vai ver que ela está menor”, aponta a consumidora.

Legislação – Mudar o tamanho dos produtos não é ilegal, mas fabricantes têm de informar claramente as mudanças, conforme a Lei.

De acordo com portaria da Senacon (Secretaria Nacional do Consumidor), pasta do Ministério da Justiça, a informação de redução de volume deve constar no rótulo do produto por seis meses a partir da data de alteração, escrito em caixa alta, negrito e seguindo outros critérios de legibilidade para que o cliente possa ser informado da mudança.

As regras, inclusive, foram endurecidas, para evitar que o consumidor seja levado ao erro. Até então, a exigência era de que as informações constassem na embalagem por três meses.

O consumidor, geralmente fiel a determinada marca, não percebia a diminuição da quantidade […] o lapso temporal aumentou para seis meses, pois entende-se que os três meses anteriores não eram suficientes”, justifica a Senacon, em nota divulgada à imprensa.

Ao jornal O Globo, o coordenador do Núcleo de Varejo e Supermercados da FGV (Fundação Getúlio Vargas) Rio, Ulysses Reis, a estratégia não é nova e se intensifica em períodos inflacionários.

“As empresas ficam com medo de subir os preços e perderem clientes para marcas menores e mais baratas, porque uma vez que o cliente migre para o concorrente, esta pode se tornar a marca mais querida.”

Reduflação – Essas mudanças já são notadas pela população e, na internet, o truque ganhou o apelido de “reduflação” – uma junção das palavras “redução” com “inflação”.

Uma publicação no Twitter gerou dezenas de milhares de curtidas, com muitas pessoas se identificando e corroborando com a situação. A caixa de 240 fósforos da marca Fiat Lux, por exemplo, passou a ser de 200 unidades. Esta mudança, contudo, aconteceu em 2021 e seguia as normas de publicidade.

Produtos de limpeza também passaram por mudanças – o lava roupas líquido Brilhante e o sabão glicerinado Ypê perderam 10% de volume cada. Ao jornal O Globo, a empresa informou que sua linha de sabão em barra foi relançada com “novos benefícios”, como “evolução na ergonomia”. A Ypê considera “cenário de aumento expressivo do preço dos insumos”, mas pondera que “procurou repassar o mínimo possível ao consumidor”.

O Goiabinha da Piraquê teve embalagem reduzida de 100 g para 75 g, enquanto o Wafer de Chocolate passou de 160 g para 100 g. A empresa justificou que os novos pacotes visam cobrir o avanço dos custos de produção, especialmente devido à alta do trigo e demais commodities, evitando o aumento de preço dos produtos nas gôndolas.

Os biscoitos das marcas Bono e Nesfit, ambas da Nestlé, ficaram menores 10% e 20%, respectivamente, enquanto o achocolatado Nescau diminuiu em 7,5%. A fabricante declarou que a adoção de novos formatos e tamanhos visa seguir tendências de mercado, garantir a adequação a inovações tecnológicas ou também padronizar a gramatura dos produtos das marcas, de forma a manter sua “competitividade”.

– CREDITO: CAMPO GRANDE NEWS

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