RABUGENTO SIM…E DAÍ?

Rugas, pelancas, cabelos brancos, coisas despencando e decrepitude. Ficar velho, como já dizia a centenária e saudosa Dercy Gonçalves, é uma M*! É ruim, nisso todo mundo concorda. Um monte de coisas que você fazia, agora não dá mais.

Mas existe um lado ótimo na velhice. Que deveríamos antecipar, exercitar e adotar muito antes, se fosse politicamente correto para uma melhor saúde mental e para sermos mais felizes. A rabugice. No Aurélio, rabugento é aquela pessoa que tende a se irritar com tudo, reclama de tudo, teima com tudo e implica com tudo. Mas eu acho que é o mais alto nível de liberdade que uma pessoa pode ter.

Depois de certa idade, não temos mais paciência para tolerar muitas das coisas que antigamente aceitávamos. Contrariados, mas aceitávamos. Na velhice, os sapos que engolíamos se transformam em crocodilos africanos. Não descem mais. Lembro-me da história do menino que ganhou um balde de saborosas jabuticabas e começou a comer as primeiras displicentemente, mas quando sobraram poucas, saboreava cada uma até roer o caroço. Na velhice, a comparação é válida. Cada ano, mês, dias e horas tem que ser aproveitados ao máximo porque aparentemente restam poucos.

Quando envelhecemos, não queremos mais perder tempo com coisas que não nos interessam. O simples fato de não querermos fazer mais o que não nos dá prazer nos traz o rótulo de rabugento. Trocar as convenções sociais pelas suas, enfim. Aprendemos a dizer não quando é necessário para nós e não para os outros! Dizer “não” é uma das coisas mais difíceis na vida. Quantas vezes você ficou com vontade de falar um monte de coisas para aquela pessoa, mas não o fez porque teve que ser educado? Quantas vezes você se arrependeu de não ter dito aquele sonoro e imponente “NÂO” para algo que mais tarde acabou te causando um grande dano?

É muito bom se livrar de todo esse mimimi social; não ir àquele aniversário infantil com aquele monte de crianças gritando e soprando apitos e aquelas malditas cornetinhas no seu ouvido. Não aguentar mais seu cunhado pentelho dando palpite no churrasco que você está preparando. Não rir daquelas piadas sem graça que seu chefe conta todo fim de expediente. Não mais esperar pacientemente no carro as mulheres da sua casa se arrumarem para ir aquele encontro social chato pra caramba. Ou não aguentar mais aquele seu amigo que conversa com você te cutucando e perguntando mil vezes “não, é?”. “Sai pra lá, meu chapa! Não me acompanha que eu não sou novela!”.

Um velho rabugento pode deixar de fazer tudo isso e muito mais. Pode ouvir daquele amigo de bar que vai votar naquele fulano porque “ele rouba, mas faz” e responder “Não discuto com gente burra!” Pode se recusar a assistir com a esposa pela centésima vez “Titanic”.  Pode usar aquela cueca velha que sua mulher insiste em quere jogar fora, mas que acomoda confortavelmente o seu velho guerreiro. E não estou falando do Chacrinha.

Fila de banco, lotérica, banheiro? É só entrar na frente de todo mundo com aquele sorrisinho que só os velhos têm. Os sacanas, inclusive.

E as anarquias que se pode fazer na velhice? A avó de uma amiga minha adorava soltar pum dentro do ônibus em São Paulo só para ter a imensa satisfação de ver que ninguém desconfiava dela e todo mundo olhava feio para aquele garoto com touca de mano, camisa de time de futebol, chinelo de dedo e bermuda três números maiores do que o dele e metade do traseiro para fora.

E se engana quem acha que o rabugento tem falta de sexo. Como também quem tem bom humor não tem excesso de sexo. Ele ri, brinca, ouve e fala como todo mundo, só não se sente mais na obrigação de forçar emoções para atender uma expectativa social. Já se cansou disso. Descobriu depois de tanto tempo que isso não funciona como muita gente acha.

Que cada um fale por si, claro, mas minha rabugice é uma questão de liberdade também. Porque eu não quero sorrir e dizer “tudo bem” quando não estiver tudo bem. Porque eu não quero falar que a vida está boa enquanto tem gente morrendo de fome ou por pensar livremente. Eu não quero estar tranquilo com isso. Eu não gosto de Natal, Dia das Mães, Dia dos Namorados, e todas essas outras datas dedicadas a uma emoção/sentimento, porque não faz sentido ter um dia pra sentir algo tão importante.

E se bem no Dia das Mães você estiver com ódio da sua? Nos outros 364 dias você pode ser o filho mais amoroso do mundo, mas isso, pros outros, vai indicar que você é rancoroso, insensível… Mas pera, quem é o insensível aqui? Quem é que está te obrigando a esconder o que você está sentindo?

O mesmo vale pra aniversários. A maioria dos meus amigos felizmente já se acostumou a não receber os parabéns… “Parabéns por ter sobrevivido mais 365 dias”… “Parabéns porque a Terra deu mais um giro inteiro em torno do Sol desde que você nasceu, independente de qualquer esforço seu”. É assim que soa pra mim. E isso não quer dizer que eu goste menos de ninguém!

Dias depois, às vezes eu mando uma mensagem desejando felicidade ou falando de coisas que eu penso da pessoa. Mas sem compromisso de ser num dia X, porque se ela for pensar que eu “esqueci” dela apenas por isso, eu honestamente quero mais é que ela chore sangue…

Estão vendo? Isso é a rabugice… E eu já cansei de ficar explicando.

Que fique uma mensagem final. Rabugentos não são necessariamente invejosos, insensíveis, rancorosos, arrogantes, ou que você achar que é. Eles só colocam a sinceridade acima de tudo isso. Acima deles mesmos. E acima de você também.

E todo mundo deveria ser assim.

Por:HUMBERTO BELTRAN é professor de idiomas, pedagogo, cronista e radialista.

CAMPANHA SANESUL